clipping: ecos distantes

A potiguar Camarones Orquestra Guitarrística usa a tecnologia para divulgar seu trabalho  (Crédito: Divulgação)

“Depois desse show, não quero mais ninguem me perguntando se o Acre existe!” Foi dessa forma que Diogo Soares, vocalista da banda acreana Los Porongas, rompeu a barreira dos quatro mil e seiscentos quilômetros que separam a capital Rio Branco, onde a banda surgiu, do município do Rio. Eles se apresentaram no último dia 28 na lona boêmia do Circo Voador, comprovando a boa leva de bandas surgidas em estados afastados do eixo Rio-São Paulo. Os exemplos são muitos. Do Amapá vem Mini Box Lunar, que faz um ‘pop amazônico’. Do Rio Grande do Norte, o destaque é o grupo Camarones Orquestra Guitarrística, que usa três guitarras para compor seu trabalho instrumental. Para conseguir um espaço no mercado fonográfico, as bandas põem a mão na massa e no computador, já que realizam festivais de música independente e usam o mundo virtual para divulgar o trabalho, com o apoio de mídias sociais como Twitter e MySpace .

Esses grupos conseguiram quebrar o obstáculo que a distância cria, usando diversos artifícios. Se não havia uma cena independente, eles a criaram, com coletivos de artistas e festivais próprios. Um bom exemplo é o Circuito Fora do Eixo, coletivo com bandas que ficam à margem de grandes centros econômicos, como Rio e São Paulo. Hoje a rede se faz presente em 25 estados, e chega a promover 59 festivais por ano.

Otto Ramos, músico da banda Mini Box Lunar e membro do Coletivo Palafita, ambos do Amapá, confia no Circuito Fora do Eixo e se empolga com o assunto: “É a melhor coisa que aconteceu no Brasil nos últimos 5 anos!É só se perguntar: ‘Como uma banda do Amapá com menos de 2 anos consegue fazer uma Tour no Nordeste inteiro?’ ou ‘Como eles tocam com grandes nomes como: Jards Macalé, Jorge Mautner, Nelson Jacobina, Edy Star?’ É tudo via Circuito Fora do Eixo, que pensa o artista como empreendedor.”

Redes sociais e saudosismo

Em alguns casos, é preciso mudar de cidade e também de comportamento para conseguir um lugar ao sol musical, como foi o caso dos acreanos do Los Porongas. A banda está na capital paulista desde 2007, onde teve que se acostumar aos novos ares e as novas mídias. ”Somos uma anti-banda quando falamos de internet. A gente teve resistência e faltou saco no início, mas depois a gente se acostumou”, explicou o vocalista do grupo, Diogo Soares. Segundo ele, o retorno na rede é grande: “Em uma semana que estávamos no Twitter, já tínhamos mil seguidores. Nos últimos dois shows em São Paulo, tudo mundo cantava as músicas, e sem dúvida, isso foi reflexo das mídias sociais.”

A banda, criada em 2003, em nenhum momento perde o orgulho da sua origem, como explica o vocalista, ao modo acreano: “Rapaz, já tentamos todas os nomes, mas na verdade fazemos rock amazônico. Todas essas referências estão no nosso som, o nosso jeito de falar, de pensar”, relata Diogo, com um certo saudosismo quando fala da terra natal: “É um lugar mágico, fora do tempo”, repete, enquanto a saudade brota em meio às palavras do vocalista.

Mudar ou não mudar?

Já os potiguares do Camarones Orquestra Guitarrística não precisaram sair do Rio Grande do Norte, e para isso eles confiaram na tecnologia, como explica o tecladista Anderson Foca: “Achamos um erro sair do seu melhor ambiente para correr atrás de possibilidades. Com a tecnologia e com uma boa estratégia, você pode fazer tudo de qualquer lugar de país, basta ter uma boa banda larga e disposição para trabalhar.” Criado em 2007,o grupo faz um som instrumental com influências de ska e surf music. E as referências regionais? “Não sei se temos uma referência direta de música potiguar, mas sem dúvida, a cidade, a praia e o clima nos inspiram na nossa música”, explica Foca.

Mil e uma utilidades

Já Otto Ramos comprova que o artista hoje em dia tem que se virar. Além de tocar órgão, theremin e sanfona no grupo Mini Box Lunar, ele também participa da realização de dois festivais: Grito Rock e Festival Quebramar. Segundo Otto, a música da banda reflete o estado: “Amapá é muito musical, temos uma musica regional bela,com vários referenciais, com os ritmos negros (temos uma cidade que foi transportada da África pra cá) temos o colorido tropical e a alegria da musica caribenha das Guianas, que é nossa vizinha. A cidade é mágica, com o céu mais baixo, já que estamos na linha do Equador.”

A banda tem causado um bom impacto no eixo Rio-São Paulo, onde foi apelidada de Os Mutantes do Amapá. O nome vê por conta da forte influência do Tropicalismo no som do Mini Box Lunar. Para Otto, a comparação traz responsabilidade: “A gente quase chora de emoção, pois eles são realmente muito importantes para nós e para musica mundial, e ao mesmo tempo bate a responsa dessa associação, quase que naturalmente. Pode ser muito bom ou não.”

Colaboração de Gustavo Durán

LINK DA MATÉRIA: http://www.cultura.rj.gov.br/artigos/eco-distante

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