CLIPPING: COBETURA DO CONEXÃO VIVO NO SCREAM & YELL

Conexão Vivo Belém 2011 – Dia 1 (28/10)

Pela janela do avião, a primeira imagem de Belém é a região da Cidade Velha, iluminada pelas luzes das ruas, a baía do Guajará a determinar os limites da cidade. Conforme a descida avança, a cidade vai se revelando pouco a pouco, até a imagem do rio ser apenas um ponto no horizonte. Para quem vem da imensidão de São Paulo, há um certo conforto em enxergar algo que se pode medir.

A noite já estava avançada na Praça Dom Pedro II, em frente à Prefeitura Municipal. No palco, o Suíte Para os Orixás apresentava sua música instrumental onírica, marcada pelos teclados e pela presença da flauta. Antes deles, já haviam se apresentado no primeiro dia do Conexão Vivo, em Belém, Deco Sampaio & Os Penetras, Ivan Cardoso e Trio Manari.

O contraste não poderia ser maior após o Suíte terminar sua apresentação. A Camarones Orquestra Guitarrística subiu ao palco imediatamente para encher a praça de distorção. Com uma mistura de ska, surf music, rockabilly e momentos de heavy metal, a equação sonora da banda do Rio Grande do Norte se baseia em riffs curtos e repetidos de guitarra e um baixo gordo e intenso que preenche as lacunas sonoras.

A banda agradou, principalmente o público que estava mais ao fundo da praça. Ali, os jovens se refugiavam em busca das latas de cerveja, escassas, com os vendedores ambulantes, para aplacar o calor da noite paraense.

Isso porque a frente dos dois palcos do Conexão Vivo, montados um ao lado do outro, estava tomada por famílias, sentadas em cadeiras de plástico brancas. A mistura de samba e jazz do mineiro Marku Ribas, que veio após o Camarones, foi melhor recebida. Veterano da música brasileira dos anos 70, o cantor, porém, é reverente demais às tradições da MPB.

A primeira unanimidade da noite veio apenas, como era de se esperar, com a apresentação derradeira de Lenine. Após um breve atraso para terminar de montar o palco, o cantor pernambucano subiu ao palco à 1h10 e viu à sua frente uma multidão que o esperava em pé.

Com um novo disco mais instrospectivo, o cantor escolheu fazer um show repleto de hits. Já no começo, em “A Rede”, inseriu um trecho de “Sinhá Pureza”, um dos hinos do carimbó escrito por Pinduca, também presente no repertório da cantora Fernanda Takai, que encerra o Conexão Vivo na noite de domingo. A resposta do público foi dada pelos quadris.

Seguiu-se, então, um desfile dos sucessos do cantor: “Dois Olhos Negros”, “Jack Soul Brasileiro”, “Lá vem a Cidade” e “Paciência”, cantada em coro. Ovacionado na saída do palco, o cantor voltou endiabrado para o bis, que começou com “Hoje eu Quero Sair Só” levada apenas pela voz da plateia. “vocês pediram, agora eu me empolguei”, disse, feliz, antes de tocar “Alzira e a Torre”, que não estava prevista no setlist, com direito a citação de “País Tropical”.

A primeira noite do Conexão Vivo em Belém reforçou a marca da programação de suas edições anteriores: a diversidade musical irrestrita. Rock, MPB, ritmos paraenses, tradição e juventude convivendo em palcos vizinhos. Se a extensão da cidade pode ser medida pelo olho do alto, as fronteiras musicais na Praça Dom Pedro II até o domingo prometem ser infinitas.

- Tiago Agostini (siga @tiagoagostini) é jornalista, colaborador do Scream & Yell e da revista Rolling Stone e editor do blog Discos da Vida.
- Fotos: Marku Ribas e Camarones Orquestra Guitarrística por Renato Reis / Lenine e Público por Thaiana Laiun

http://screamyell.com.br/

 

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