CLIPPING: CAMARONES NO PORÃO DO ROCK – AEROPSCODÉLICO BLOG

Blues de bar e surf music com tempero potiguar marcam a última noite do Porão do Rock

Acreditem no que digo: existem verdadeiros momentos de celebração na vida de todo roqueiro, e muitos deles ocorrem diante de palcos quentes, pouco iluminados, onde artistas tão elétricos quanto suas guitarras levam o público a um estado de transe quase espiritual. A isso damos o nome de catarse. Foi o que aconteceu ontem durante a apresentação de Jon Spencer Blues Explosion (foto). No entanto, falaremos disso depois.
A segunda e última noite do festival Porão do Rock aconteceu praticamente sem nenhum imprevisto, com quase todas as apresentações começando na hora prevista. A exceção ficou por conta do projeto do ex-Angra André Matos, a banda Symfonia, que iniciou seu show com uma hora de atraso.
Apesar dessa segunda noite apresentar um público bem menor em relação à noite anterior, aconteceu de tudo mesmo. Vimos o retorno do De Falla “clássico”, com Edu K, Castor Daudt, Flu e Biba Meira, num show da mais pura celebração do rock brasileiro moleque. Aquele rock descontraído escola Ultraje a Rigor, que os Raimundos repetiram com esmero na noite anterior.
Destaque para “Sodomia”, quando o irreverente Edu K aproveitou a ocasião para alfinetar a neo-pseudo-puritana Sandy Lima que foi o assunto da semana com suas recentes declarações dadas à revista Playboy.
Falando em Playboy falamos em sexo, e falando em sexo podemos dizer que esse foi o assunto em voga durante boa parte das apresentações ocorridas nesta noite. Bem diferente do estilo voltado para mitologias nórdicas do heavy metal do Angra, ou dos esporros cheios de revolta dos hardcorers, a música safada, sexy e insinuante esteve presente no ar e nos palcos da última noite dessa edição do Porão do Rock.
Bianca Jhordão e sua partner Carol Teixeira excitaram vários marmanjos durante suas performances sobre o palco. As duas fazem parte da banda Brollies & Apples, sendo Bianca também líder da banda Leela, e fizeram um show pontuado pela sensualidade que saltava de seus poros. Musicalmente falando, a Brollies & Apples faz um som que lembra muito Garbage, Curve, e em certos momentos Sonic Youth (impressão reforçada quando a banda mandou “100%”, do repertório da banda de Kim Gordon). Ponto alto: os gemidinhos durante a cover das Runaways, “Cherry Bomb”.
Surpreendeu a apresentação dos indies da Lucy and the Popsonics. Costumeiramente uma banda de pegada leve, a vocalista Fernanda e sua trupe resolveram aditivar seu som para agradar aos roqueiros mais adeptos das sonoridades mais pesadas. Deu certo.
Outras bandas bem sucedidas foram a goiana Bang Bang Babies e a potiguar Camarones Orchestra Guitarrística. Falando em Camarones, a banda da baixista Ana Morena mostrou – mais uma vez – como fazer um palco ferver. A receita da banda em bem simples: riffs grudentos e boa interação das guitarras + samplers que não saturam as músicas + animação de todos os membros (principalmente por parte do casal Anderson e Ana). A banda do Rio Grande do Norte é tão boa que nem dá para sentir falta de um vocalista.

Falando em formações pouco usuais e rock vigoroso, chegamos ao grande momento da noite, que foi a apresentação dos americanos da Jon Spencer Blues Explosion. A banda fez seu show diante de uma platéia embasbacada de admiração. Esses caras foram responsáveis pela volta do blues de bar ao topo das paradas, principalmente depois que lançaram os essenciais Extra Width (1993), Orange (1994) e ACME (1998). Para deixar claro: blues de bar é aquele blues elétrico, cujos músicos tocam mais com emoção e entusiasmo do que com técnica. O estilo foi burilado por nomes como a banda inglesa Dr. Feelgood, da qual faziam parte os grandes Lee Brilleaux (morto em 1994) e Wilko Johnson.
Graças ao Jon Spencer Blues Explosion, que continuou o trabalho de Brilleaux e Johnson, o estilo tornou-se cult, passou a freqüentar a MTV e influenciou gente como White Stripes, por exemplo.
Atendendo a um pedido do próprio Jon Spencer a iluminação do palco foi substancialmente reduzida e o telão desligado, o que contribuiu para que o show adquirisse uma atmosfera densa e crua.
Por mais de uma hora o público esteve diante de uma banda experimentada em divertir. Ao fim de tudo ficou a impressão de que, apesar dos problemas ocorridos na noite anterior como atrasos e princípio de tumultos, a edição desse ano do Porão do Rock vai deixar saudades, principalmente por mais uma vez ter mostrado que o rock, com toda sua carga de diversão, eletricidade, juventude e sensualidade está mais vivo do que nunca.
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