ARTIGO: VOANDO E CONHECENDO POR AÍ!

Voltando para Natal por Ana Morena

Voltando para Natal por Ana Morena

Por Léo Martines, guitarrista do Camarones Orquestra Guitarrística

Ainda no clima de final de ano, quando muitos param para avaliar o que se passou nos últimos doze meses e para fazer planos e promessas para o ano seguinte, eu paro para escrever e compartilhar com vocês o que foi 2010 para mim e mostrar como essa experiência pode ser útil para alguns. Não é a intenção escrever um manual de como gerenciar a sua banda, mas apenas um texto baseado no que EU vivi e que pode apresentar algumas dicas valiosas. Foi um ano de muita dedicação e trabalho, acompanhe comigo.

Para começar, durante diversos momentos desse ano algumas pessoas se dirigiram a mim equivocadamente em relação a estar circulando com a banda. Muitas vezes, creio eu, por brincadeira, mas mesmo assim, uma boa parcela ainda acredita no ultrapassado modelo de postura ‘artística’, que ainda existe, porém está longe da nossa realidade. Mas será que faz falta? Temos total liberdade e controle sobre o nosso trabalho para leva-lo para onde quisermos e para quem quisermos. Somos da geração dos pedreiros e circular envolve um trabalho árduo, envolvendo muita dedicação e respeito a todas as partes envolvidas, dedicação essa, MUITO maior fora do que dentro do palco, para que aí sim ocorram os 30 ou 40 minutos mágicos: o show!

Dormindo em um táxi em SP

Dormindo em um táxi em SP

Agendar apresentações já é uma tarefa difícil, viabilizá-las então, ainda mais. Tudo para não negar nenhuma oportunidade, envolvendo um planejamento violento de quando e como fazer para otimizar a planilha financeira da banda, tornando possível alcançar o máximo de lugares possíveis, em condições honestas de conforto e dinheiro, além de conciliar com outras atividades. Não foram poucas as vezes que tivemos que trabalhar a distância, estudar, ou mesmo voltar à nossa cidade de origem, com tempo apertado  para cumprir compromissos profissionais e/ou acadêmicos.

Estar em turnê é acordar cedo, fatalmente dormir pouco, carregar malas, instrumentos, viajar, montar tudo, repetir todo o processo e  às vezes o sono cobra a conta e temos que nos virar.

Para começar é preciso empreender. Nada cai do céu ou acontece por acaso, em qualquer ramo de atuação é preciso investir para colher os frutos em um prazo, seja ele curto, médio ou longo, um dia um trabalho e um investimento bem feitos, darão algum retorno, não tem erro mas é preciso trabalhar, investir e arriscar. E assim começamos em março de 2010 a sair com o Camarones Orquestra Guitarrística para nossa primeira viagem mais longa, uma turnê de cerca de 10 datas pelo Nordeste brasileiro do Rio Grande do Norte a Bahia, descendo e tocando e na maioria dos estados interiorizando e sem ter nenhuma verba garantida, mas a certeza de que seríamos bem tratados em todos esses lugares, e assim foi.

A atuação dos coletivos foi fundamental para este primeiro momento, nos garantindo uma boa recepção, alimentação e hospedagem,  tudo dentro do que poderia ser oferecido de melhor para uma banda que nunca tinha passado pela maioria dos lugares e servindo de alavanca para nosso desejo de interiorizar e assim expandir nosso plano de formação de público, além de incentivar a turma a promover mais eventos e levar mais bandas em lugares como Arapiraca e Camaçari, no interior do Nordeste, onde tudo é mais difícil, porém, surpreendentemente sempre com ótima recepção por parte do público e essa é a grande vitória de fazer tudo isso.

A turnê foi um sucesso e gerou diversas outras oportunidades para momentos posteriores, e deixando as portas abertas para retornar na maioria dos lugares, e não é a toa que conseguimos tocar mais de uma vez em mais de um terço das cidades que visitamos, em algumas delas, quatro ou cinco vezes.

Soundcheck no Palco da FMB 2010 - BH(MG) e Show em Camaçari(BA)

Soundcheck no Palco da FMB 2010 – BH(MG) e Show em Camaçari(BA)

Claro, o conteúdo é o fator mais importante na banda, e investimos nisso, mas alguns fatores são quase tão importantes quando a questão é estar circulando. Anderson Foca, meu companheiro de banda sempre fala em “Qual o sinal que você está emitindo para os contratantes e produtores?”. Com isso, é preciso ter cuidado, mas deve partir também da essência da banda e da paixão com que ela realiza tudo o que faz. O nosso sinal é estar disponível para se apresentar para 5 ou 5 mil pessoas em um mesmo final de semana, no maior palco das nossas vidas ou em um bar apertado onde sequer há um palco, com a mesma simpatia, dedicação e vontade de fazer bem feito.

NUNCA, NUNCA subestime um lugar ou seu público, por menor que ele seja, sempre é uma nova oportunidade e uma nova experiência, além de gerar oportunidades futuras. Outro ponto importante é reclamar menos e fazer mais, saber lidar com as adversidades e saber que elas sim são o grande laboratório para uma banda que quer circular.

Quantas vezes fora de casa não encontramos o amplificador dos nossos sonhos ou sequer tinha um amplificador? E sabe o que fazemos? Não há tempo para reclamação, vamos estudar a melhor maneira possível de timbrar o que nos foi fornecido e fazer a nossa parte. Claro que tudo tem limites e às vezes a estrutura fornecida (nunca foi o caso) é inviável, mas sempre o trabalho é no sentido de otimizar e respeitar as condições da produção e do local e valorizamos muito essa experiência e esse exercício.

Não foram poucas as vezes que saímos de casa para um show que pagava bem para a nossa realidade e resolvemos investir e casar investimentos da nossa parte para fazer shows em lugares que tem condições bem mais modestas, mas que acreditamos no potencial e no público. Aproveitar o tempo também é importante, cumprindo outras pautas ‘extra-shows’ e marcando outras em dias off que fatalmente teríamos naquela cidade, como, por exemplo, Fortaleza nos dias da feira da música, onde conseguimos nos apresentar três vezes para três estilos de público e lugares distintos, sem dúvida um passo muito importante para a formação de público e construção da carreira da banda.

Lá em cima falei em casar investimentos da banda para viabilizar outros lugares, e volto a falar. Nossa tour de Maio pelo sudeste e centro-oeste foi quase toda custeada por dois shows bons que realizamos. Poderíamos ter feito os dois e voltado para casa com esse dinheiro. Mas uma coisa é certa, com ele, nem de longe, conseguiríamos comprar o que ganhamos nesses dias que passamos fora, o aprendizado, as pautas, os shows, as pessoas incríveis que conhecemos, os lugares que não sei outro motivo pelo qual visitaríamos um dia se não com o rock e a lição de vida, além, é claro, e mais uma vez, das várias oportunidades geradas naquela ocasião, só pra destacar uma delas, a oportunidade de conhecer e tocar na região Norte, no emblemático e acolhedor estado do Acre, foi plantada ali, naquela ocasião.

Público em Brasília(DF) e em Campinas(SP)

Público em Brasília(DF) e em Campinas(SP)

E assim se passou um ano com mais de 70 shows, quase 80 pautas, TV’s, rádios, jornais, um clipping poderoso. Percorremos 14 estados do Brasil, 5 regiões, 31 cidades, conseguindo retornar em várias delas. Foram longas viagens, as vezes tendo que estar em Londrina no sul do país e em Juazeiro do Norte, no meio do cariri cearense. As mudanças radicais de paisagem, clima, cultura e condições sócio-economicas, nada são perto do desejo de receber rock e algo novo em todos esses lugares.

Se tem uma coisa que foi a grande estrela desse ano, pode-se dizer, sem dúvida, que foi a receptividade por parte do público, muito acima do esperado, e às vezes surpreendente, nos motivando a querer voltar e fazer melhor todas as vezes. Portanto, além de uma retrospectiva e dicas, eu quero principalmente demonstrar a minha felicidade e agradecimento a todos que fizeram esse ano tão incrível.

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